Jogando: Lollipop Chainsaw

Existem jogos cujo o universo é tão rico, tão desejável e tão bem construído que acaba por permitir que você aceite certas falhas de construção de Gameplay. Outros jogos possuem um universo comparativamente menor, as vezes um mero pretexto, mas mandam tão bem no Gameplay que você aceita aquele universo com os problemas que ele tem.

Lollipop Chainsaw junta um pouco de cada um: um gameplay que funciona mal e porcamente com uma idéia de universo tão rasa e mal criada que,  se tivesse sido pensado de forma mais completa, só tem lugar na paródia.

No game você controla Juliet, uma mistura de todos os estereótipos ofensivos já criados envolvendo cheerleaders americanas. Juliet é burra, gostosa, flexível, safada, tem uma voz esganiçada, um fetiche por roupas curtas e compras e um sistema moral extremamente cru e pouco desenvolvido. O único motivo dado para a desgraçada cair de pára-quedas no meio da história é que ela esta fazendo aniversário (18 anos) e vai finalmente apresentar o namorado Nick para a família – que é uma coleção de estereotipados caçadores de monstros retirados de diversos filmes dos anos 80.  Resumindo: a única razão de Juliet ser a heroína é porque ela estuda na escola onde começa a crise Zumbi e tem 17,5 anos de treinamento em como destruí-los… sem falar em acesso a uma serra – elétrica mágica e alguns feitiços.

Se a heroína é ruim o mundo do jogo continua o desserviço a uma idéia original que eu sei que soou tentadora aos produtores do jogo. Os Zumbis, mesmo o mais simples deles, exige mais de 30 segundos de golpes para serem mortos, e a milhares deles tentando reviver sua vida na pós vida, de uma forma que não é engraçada e ofende o maior número possível de pessoas. Alguns exemplos são os Zumbis da sala de ginástica na escola, com pensamentos constantes de continuar magros e esbeltos ou perder posição social até que finalmente se desmontam em pedaços ou caem das esteiras para atacar você; ou os Zumbis nerds que atacam Juliet enquanto falam frases saídas de clássicos de ficção científica, ligeiramente modificadas para ter uma entonação sexual em relação a personagem principal. É o equivalente para videogame de uma piada de peido… e eles não são mais engraçadas desde de que eu tinha 5 anos. Por vezes Juliet sai do gameplay principal para participar de algum tipo de mini game ambiental, como matar Zumbis usando pole dancing ou saltar sobre a cabeça dos zumbis no ritmo de uma determinada música, mas essas distrações servem apenas para intensificar mais ainda a sensação de que todo o game foi criado com base na premissa de que todos, sem exceção,  gostaríamos de assistir horas e mais horas de violência gratuita sendo despejada por uma adolescente com pouca roupa.

Aliás, já que tocamos no tópico música, o departamento sonoro de Lollipop Chainsaw é interessante. As músicas, e você tem a opção de ouvir qualquer uma que já tenha destravado ou comprado, são uma seleção eclética de pop e rock dos anos 90 (Muito muito muito mais pop do que rock…mas vá lá!) que provavelmente vai retirar alguns sorrisos e algumas cantaroladas de qualquer um com mais de 18 anos – os sons são competentes, com especial atenção a voz escolhida para Nick, o namorado de Juliet: e um dos poucos bons pontos do jogo. Os gráficos de LC, no entanto, são uma salada mista. A animação do zumbis é ridícula e os personagens que você escolta ou salva tem animações que remetem aos jogos do PS1; enquanto isso os personagens principais e os chefões tem uma animação primorosa e uma qualidade gráfica bem feita. Chovem efeitos de partícula e líquidos no jogo, principalmente por que cada vez que você finaliza um combo com um número um pouco mais alto de mortos o jogo explode em purpurina, mas funciona dentro do contexto do jogo… as primeiras 10 vezes. Depois fica só irritante. As texturas variam entre alta qualidade e meu-deus-que-diabos-é-isso e são aplicadas com as mesma reserva de uma prostituta no dia do retorno das tropas de uma guerra de 10 anos… pouca!

O controle de LC me irritou muito. Não que ele não funcione, ele até funciona, mas somado a um sistema de golpes que não encaixa e a inimigos que podem receber onda após onda de golpe, sem parecerem nem mesmos aturdidos por isso, eu comecei a pensar se continuar gastando meu tempo jogando realmente estava me divertindo. O Gameplay é repetitivo ao extremo e eu não sei em qual das nádegas de Juliet eu quero carimbar “Como God of War mas….” porque aí eu vou poder escrever embaixo “com zumbis” – só que aparentemente os designers de níveis, os responsáveis pelos inimigos e os criadores do sistema de combate não estavam conversando entre si. Juliet ataca os inimigos da mesma maneira o jogo todo e, mesmo com você comprando todos os golpes disponíveis para a desgraçada, nunca parece ficar mais forte ou mais capaz – na luta com o chefão final, com todos os golpes disponíveis, eu ainda sentia que a desgraçada tinha menos golpes e capacidades do que Nero no começo de Devil May Cry 4 ou Kratos em qualquer um dos jogos do PSP.

Mas o jogo tem um ponto positivo: Nick, o namorado decapitado de Juliet. Ao tentar defender sua amada nos primeiros momentos do jogo, Nick acaba mordido por um dos zumbis e Juliet o decapita, colocando sua cabeça em uma espécie de vaso mágico que permite que ele continue vivo e conversando com ela durante toda a aventura – em alguns momentos específicos você pode até colocar a cabeça dele no corpo decapitado de certos zumbis e Nick toma o controle do corpo, permitindo a Juliet solucionar certos puzzles, saltar certos obstáculos ou ganhar auxílio em um combate. Nick é um piadista sem corpo preso a cintura de um fetiche ambulante e constantemente percebe a intensidade da piada que o próprio jogo é. Ele quebra a quarta parede constantemente, chama a atenção para falhas de enredo do jogo e surta com a inabilidade de Juliet de lidar com idéias melhores do que “vamos matar todos eles”. Em muitos muitos muitos muitos muitos muitos níveis, Nick é um personagem melhor que todos os outros no game… na verdade ele é melhor que a porra do jogo todo!

Se vocês tiveram a chance de colocar a mão em Shadow of the Damned, também do Suda 51, vão perceber que Lollipop Chainsaw é algo como uma versão feminina do primeiro. Ao contrário das constantes piadas fálicas você terá fotos de peitos e closes tão íntimos da calcinha de Juliet que deveriam estar em livros de ginecologia. É engraçado nos primeiros 15 minutos, de um jeito meio garoto-virgem-de-15-anos-lendo-revista-porno, mas não tem “sustança”, não tem coração, é uma experiência vazia que mais uma vez prova que não dá para fazer um game inteiro de um sonho masturbatório.

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Sobre Marcel Bonatelli

Historiador de games e jogador inveterado eu respondo todas as suas dúvidas sobre games e o mercado de games no site minicastle.org ou no email marcelbonatelli@minicastle.org

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