Jogando: Halo 5: Guardians (XBOX One)

Eu sou um GRANDE fã da franquia Halo – nada nem perto do nível de loucura que eu tenho por Zelda ou Mass Effect, mas um grande fã da franquia mesmo assim. Eu tenho os livros, tenho os filmes, as animações, quase todos os quadrinhos e, é claro, os jogos em si. Eu estava realmente esperançoso, depois do fiasco que as constantes falhas e problemas de Master Chief Collection geraram, que a 343 e a Microsoft teriam aprendido e que Halo 5 estaria perfeito.

Eu também tinha uma tépida esperança que esse jogo tirasse Arkham Knight da posição de jogo do ano no meu coração.

Não funcionou. Nem de longe. Se Halo 5 fez algo foi me deixar ainda mais certo que, por enquanto, Batman: Arkham Knight é meu jogo do ano de 2015.

E não, antes que os sonystas caiam como urubus sobre o game, eu não acho que ele  merece os 5 em 10, 2,5 em 5, 6 em 10 ou 28 em 40 que ele tem recebido por aí. Halo 5: Guardians é um excelente jogo. Ele só não é um bom Halo.

O problema começa no principal e mais sólido ponto do jogo: A Jogabilidade em si. Halo sempre teve um sistema de jogabilidade mais metódico e mais travado que os outros FPS da praça, com personagens em enormes power armors utilizando esperteza, escudo e cobertura para destruir hordas de inimigos enquanto iam de um ponto A para um ponto B, normalmente apertar um botão,  destruir alguma coisa ou enfiar uma mulher azul numa USB cósmica.

A 343 joga a primeira metade inteira da minha sentença pela janela, e, embora você ainda ande de um ponto A para um ponto B, normalmente apertando um botão ou matando algo no fim dessa jornada, você vai fazer isso usando saltos duplos, jet packs super rápidos, escalando paredes verticais e se mexendo por aí em uma velocidade enorme. Você vai ter novos métodos de assassinatos super ageis, um monte de movimentos no ar super ageis e golpes meele super ageis.

Como vocês devem ter percebido as duas descrições são incompatíveis.

E eu entendo perfeitamente que a equipe Osíris, do mais-sem-sal-nem-açucar-que -o-Alckimin Agente Locke, deveria ser bem ágil, para gerar cenas animais…

… e bater de frente com a dureza e movimentação “quadrada” da equipe Azul, do Master Chief.

Mas mesmo o Chief se movimenta como se estivesse numa espaçonave, usando saltos com Jet Packs, socos com o auxílio de foguetes, uma quantidade gigante de movimento vertical, entre outras novidades da jogabilidade. A sensação que eu tenho é que a 343 jogou muitas e muitas horas de Call of Duty:Advanced Warfare e ainda mais horas de TitanFall, e chegou aquela conclusão que “Ei! É exatamente isso que precisamos para revitalizar Halo!”.

E lá foram eles… agora os Spartans se mexem como uma mistura de ginastas e ninjas e não parecem em nada estar vestindo 350 Kg de armadura auto propelida. Way to go 343.

“Mas Marcel… é divertido de jogar?”

Sim! É imensamente divertido de jogar! Embora eu acredito que a história não faça absolutamente nenhum sentido se você não jogou pelo menos Halo 4, todos os episódios do Spartan Ops e leu os livros Ghosts of Onyx, Glasslands e Thursday War. Mas mesmo se você não entender nada do que está ocorrendo você vai se divertir pacas simplesmente jogando o game. Principalmente no modo multiplayer, onde a história não faz a menor diferença e a verticalidade torna tudo ainda mais divertido – vou tocar mais nele mais tarde.

Graficamente o jogo é muito muito bonito e é impressionante ver que ele roda liso a 60 frames por segundo – mesmo que para isso ele fique míope. Eu explico: Para garantir que o jogo rodasse o tempo todo a pelo menos 60 fps a 343 criou um sistema de alcance dinâmico de gráfico que muda a resolução de objetos ou partes do cenário conforme o sistema tem mais ou menos memória livre. Com poucos inimigos na tela e poucos projéteis o jogo roda a 1080p com 60 fps. A partir do momento que os inimigos começam a surgir de buracos que você não havia visto antes, como uma homicida e determinada trupe de circo, e o ar se enche de projéteis, os gráficos caem para 900p e continuam nos 60 fps. Por fim, a hora que o sistema estiver quase pegando fogo e a quantidade de inimigos no mapa já tiver levado você para aquele estado de euforia violenta onde você começa a arremessar granadas direto no rosto dos inimigos, ao invés de aos pés deles, para ver se consegue algum dano a mais, o jogo pede arrego e desce para os 720p. Além desse sistema os objetos mais distantes, que estão além do horizonte de ataque e que não estão fazendo parte da batalha, tem uma resolução e uma velocidade menor.

Divertido pacas! Mas não parece Halo!

Acredite em mim… nada disso vai fazer a menor diferença quando você estiver lutando pela vida em enormes batalhas campais recheadas de inimigos, mas, a hora que o clima começar a suavizar, ou quando o jogo te forçar a fazer a mesma batalha pela quarta vez, normalmente devido a imbecilidade da inteligência artificial dos seus parceiros de equipe (vou tocar nisso mais tarde) você vai começar a perceber quão bizarro é essa diferença de resolução/velocidade o tempo todo – principalmente quando inimigos distantes parecem estar se movendo em uma atmosfera de melaço com vários frames sendo esquecidos em uma qualidade de animação que está mais ou menos no mesmo nível dos primeiros desenhos do Scooby Doo – na década de 70/80.

O som é bem bacana, com músicas bem feitas e bem escolhidas e vozes que cumprem bem o seu papel – destaque para Natham Fillion, da série Firefly, reprisando seu papel como Buck, de Halo 3: ODST e Steve Dowes como um muito austero e cansado Master Chief. Os inimigos soam legal e as armas não parecem que foram feitas pela Fisher Price, o que é sempre muito bacana. É uma pena que tanto o fireteam Osíris quanto o fireteam Blue não tem muitas conversas dignas de nota e que Locke, que se você estiver jogando single player é o personagem que você controlará por 75% do game, é chato de dar dó.

Aliás esse é outro ponto que me chateou. Locke é um personagem vazio e sem sal, um assassino de armadura que segue ordens sem questioná-las e que não tem o mínimo discernimento que está caçando uma lenda viva. Salvo as horas que Buck está falando o time Osíris é chato de escutar e poderia ter sido substituído por 4 robôs caçadores de Spartans lendários que não faria a menor diferença. E já que estamos falando dos 4 personagens obrigatórios de cada grupo, melhor tocar no elefante branco: Esse jogo foi inteiramente concebido para ser jogado em 4 jogadores – o tempo todo. Estou conseguindo levar uma campanha single player no heroíco com um pouco de custo, mas jogar no lendário sem apoio humano é simplesmente horrível. E não tem como usar matchmaking para completar a galera que vai jogar a campanha contigo – você tem que trazer 3 amigos seus para jogar com você.

E acredite em mim, a IA é horrível! Péssima, grotesca, nojenta e asquerosa! Agora, quando sua energia acaba, você cai, prostado, e precisa esperar ser reerguido pelos seus companheiros de equipe. Você pode apertar X para avisá-los da sua situação, mas saiba que, principalmente nos níveis de dificuldades mais altos, se você estiver com dois ou três inimigos por perto, você já está morto. Porque seu time não vai limpar possíveis adversários, se preocupando em posicionar-se de forma segura para te regenerar. Nem um pouco. Eles vão correr em linha reta, direto para você, e vão tomar pipoco após pipoco até caírem (ou serem atingidos pela mesma Fuel Rod ou espadada na bunda que você) e morrerem logo ali, do seu lado. 343… se você vai forçar todo mundo a jogar com mais 3 IAs – porque nem todo mundo tem 3 amigos que tenham Halo 5 e você não nos deixa jogar com desconhecidos – suas IAs tinham que ser top of line, as melhores, e tudo mais.

Master Chief ruleando

E já que tocamos no ponto de jogo cooperativo obrigatório eu ainda estou espumando de raiva de não poder sentar com um amigo, ou com meu irmão (que faz aniversário hoje, falando nisso – Parabéns!!!) e jogar a campanha Cooperativamente no meu sofá. Uma coisa que eu pude fazer EM TODOS OS OUTROS HALOS ATÉ HOJE. Mesmo quando não fazia sentido na história!!! E contar essa historinha babaca de que “os gráficos do jogo sofreriam um baque” e que “pouca gente usa o couch co-op” é ficar sambando na nossa cara de otário 343. Aceite de uma vez que você queria forçar mais pessoas a comprarem mais cópias do seu jogo e vamos para o próximo tópico.

É claro que a maior parte dos problemas que eu citei até agora só atingem a campanha – porque fica óbvio até ao mais imbecil de nós que Halo 5 foi quase que integralmente pensado em direção ao multiplayer. E o multiplayer altamente competitivo, no nível de E-Sports mesmo. E nesse sentido Halo 5 brilha fortemente – e se mostra como o jogo incrível que ele é. Uma pena que ainda não pareça Halo.

Os Req packs

Há dois grandes sistemas de multiplayer em Halo 5: Arena games e Warzone. Arena consiste nos jogos que nós já mais ou menos conhecemos, como Swat (dois grupos de 4 ou 5 jogadores, armados apenas de rifles e pistola, sem escudo de energia e com tiros na cabeça sendo letais), free deathmatch (todo mundo contra todo mundo), team deathmatch (um time, normalmente de 4 ou 5, versus outro time do mesmo número) entre outros. Existem algumas novidades, e a melhor delas é Breakout, um modo de jogo 4 vs 4 em que todo mundo começa com uma submetralhadora com pouca munição e uma granada de fragmentação, não há recarga de munição a não ser pegar a dos inimigos (e amigos) caídos, ninguém tem escudos e a morte é permanente (você só volta quando a partida terminar). Isso cria um nível completamente novo de tensão, porque você não pode simplesmente se jogar na batalha como se não houvesse amanhã – você tem que planejar seus movimentos e ir devagar, se comunicando o tempo todo com a sua equipe e, ainda por cima, capturar a bandeira inimiga. É animal!

Aliás… os Spartans falarem por si foi um ponto muito legal 343! Agora, durante o multiplayer, quando seus colegas estão cercados, ou sob fogo inimigo, ou receberam um tiro de sniper que arrancou o escudo, ou milhares de outras situações, eles gritam isso (coisas como “I’m Pin Down!”, “Under heavy fire” e “I’m being sniped”), aparecendo no HUD e no mapa de todo mundo, mesmo através de paredes. Isso permite correr até lá e dar suporte (ou morrer bestamente tentando chegar lá… as vezes da mesma coisa que estava matando seu colega). Em algumas situações eles até gritam sobre veículos desocupados ou sobre pontos de movimento não tomados no mapa. É uma adição bem bacana, principalmente se você estiver jogando com desconhecidos que não papeiam muito.

Warzone é bem diferente. É uma arena gigantesca onde lutam 12 contra 12 jogadores, com direito a centenas de veículos, terrestres e aéreos, com três “Chefes” e duas “bases”. Você pode invadir a base inimiga, capturar a bandeira e levar para a sua base, destruir os chefes que rondam o mapa (que podem ser elites com um contingente de grunts ou dois pares de Hunters juntos, etc…) ou simplesmente guerrear até o fim do tempo e ver quem tem mais pontos. E é nessa zona que entram em ação os Rec Packs – pequenos pacotes de itens, veículos, diferenças cosméticas ou habilidades que podem ser comprados com dinheiro real ou com pontos ganhos nas partidas. Você pode usar a Rec Energy para chamar suas cartas para a partida, ganhando rifles sniper, shotguns ou mesmo veículos, embora, se você morrer, eles ficam lá jogados e qualquer um pode pegar. Isso significa que você fica constantemente pensando quando e como usar efetivamente suas rec cards e queimar sua rec energy porque o risco de simplesmente entregar para o time inimigo um veículo ou arma boa pode ser superior ao desejo de simplesmente pegar algo enorme e brilhante para si. Por outro lado, toda vez que você chama a arma, e realmente consegue usá-la, a sensação é boa demais, visto que você sabe o diferencial que aquilo fez para você.

Halo 5 é um excelente jogo – eu totalmente discordo dele ser meramente mediano. Tem uma série de problemas graves que deveriam ter sido solucionados muito antes do jogo ser colocado a disposição dos jogadores – mas ainda assim é muito bom. Ele só parece demais com Call of Duty para ser um Halo que eu vou realmente amar. Se você devorou Call of Duty: Advanced Warfare e quer algo com uma história milhões de vezes melhor, talvez seja o momento de dar uma chance a saga Halo. Se esse for seu primeiro Halo você vai adorar. Mas se você é um grande fã da série, vindo diretamente do Master Chief Collection prepare-se para uma possível decepção.

Bom divertimento.

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Sobre Marcel Bonatelli

Historiador de games e jogador inveterado eu respondo todas as suas dúvidas sobre games e o mercado de games no site minicastle.org ou no email marcelbonatelli@minicastle.org

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