O que nós perdemos – Mother 3

Pouca gente jogou Earthbound no Super NES.

É uma verdade da vida. O jogo era caro, difícil de achar, muio diferentão e um clássico Cult. Assim como Citizen Kane ou Vidas Secas, a maior parte das pessoas fala sobre Earthbound, a continuação de Mother, um RPG muito diferente do Famicon que, até recentemente, nunca tinha saído nos EUA (está disponível agora como Earthbound ZERO no Wii U), mas nunca, efetivamente jogou Earthbound.

O jogo tinha, no entanto, vendido o suficiente no Japão para ganhar uma continuação. Que seria trazida para os EUA depois que a Nintendo descobriu, graças a Square, que os americanos gostavam (e compravam) RPGs. Era o melhor dos mundos – uma relação ganha-ganha: Todo mundo ganhava um novo RPG legal e a Nintendo fazia dinheiro.

O projeto foi liberado para desenvolvimento no SNES com Shigesato Itoi, diretor dos últimos dois jogos da franquia (e de 3 jogos de pesca… sim… pesca), no leme mais uma vez. Depois de meros meses de desenvolvimento, em 1995, duas coisas ficaram claras:

  • O que Itoi queria fazer não podia ser feito no SNES;
  • Se Itoi simplificasse o jogo para utilizar gráficos não poligonais, não 3D, ele levaria 2 anos para entregar o jogo.

A Nintendo não queria arriscar um RPG de peso no SNES em 1997, quase dois anos depois da data de lançamento original do Nintendo 64. Itoi foi instruído para abandonar qualquer asset criado em pixels/sprites e jogar toda a sua equipe (enorme, para os padrões internos da Nintendo, à época) em desenvolver o jogo para o Nintendo 64. O jogo foi mostrado pela primeira vez na Nintendo Shoisenkai de 1996 (uma feira, somente da Nintendo, que ocorria anualmente em Tokyo, antes do fortalecimento da E3) em toda a sua glória 3D.

Infelizmente (ou felizmente, não sabemos dizer) o projeto de Itoi era realmente vanguardista e enorme. 15 capítulos originais, muitos deles utilizando cenários e personagens completamente diferentes, que se reuniriam apenas no final da odisséia, começaram a se provar pesados demais para um cartucho típico de Nintendo 64. Com o corte de 3 capítulos e a promessa de Itoi que alguns capítulos seriam inteiramente convertidos em animações em tempo real, geradas pelo próprio Nintendo 64, a Big N pensou em lançar o jogo com os primeiros cartuchos de 256 Mb – mas o projeto dependia de uma série de funções extras que teriam que ser incluídas no cartucho, como um relógio com tempo real, baterias de salvamento e outras extravangâncias que encareceriam o projeto.

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A solução era simples: Jogar o projeto para o Nintendo DD. O drive de discos óptico-magnéticos do Nintendo 64.

O que? Nunca ouviu falar dele? E você TEVE um Nintendo 64? Nós vamos falar dele em breve…

Por hora basta vocês saberem que o DD teve apenas 8 jogos (3 nem eram bem jogos) lançados para ele e foi um fracasso de público e crítica que deixou a Nintendo completamente amedrontada de tentar saídas onlines por anos (em 1999, quando foi lançado, o DD fazia basicamente tudo que o Dreamcast fazia online e muito mais). Apesar disso ele permitia jogos MUITO maiores, tinha um clock interno, memória interna para salvamento e permitia o barateamento da produção e venda final de jogos. O DD era a solução para o Nintendo 64 e para Itoi.

[youtube=https://www.youtube.com/watch?v=7hSphL_xySs]

Até a Nintendo perceber, depois de adiar o drive de 96 para 97, 97 para 98, 98 para 99 e finalmente lançar em números muito reduzidos, que o DD era caro, difícil de usar, difícil de programar, e, no final, não era páreo para os drives de Cds dos concorrentes. Itoi se viu, em 1998, depois de mais de 3 anos de esforço no projeto, diante da possibilidade de ter que fazer novos cortes para colocar o jogo em um cartucho de 512 Mb, como os utilizados em Resident Evil 2 (o maior jogo do Nintendo 64). Novos cortes de enredo e de capítulos foram feitos na tentativa de colocar o jogo em um cartucho disponível em 2000, mas nem de perto eram foram suficientes. Em 1999, após mais de 4 anos labutando sobre o projeto, Itoi e Iwata cancelaram o projeto durante a E3 1999.

Um senhor RPG fez falta no Nintendo 64 – Mas teria Earthbound 64/Mother 3 sido um jogo de sucesso se lançado para o aparelho? Tudo leva a crer, mesmo no formato capado que o jogo teria sido reduzido para caber em um cartucho de 512 Mb, que SIM! O jogo era bonito, vibrante e tinha uma história de tirar o folêgo de tão boa. Se lançado ele se uniria aquela lista de jogos de Nintendo 64 que todo mundo queria ter o console para jogar, como Goldeneye 007, Perfect Dark, Ocarina of Time e Majora’s Mask. E teria, certamente, sido lançado no Virtual Console do Wii.

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No entanto essa história tem um final super feliz. Em 2006, mais de 7 anos depois do cancelamento, Itoi voltou a carga, dirigindo Mother 3, com Shigeru Iwata como seu produtor, para lançamento no Game Boy Advance. Evidentemente o jogo não contava com avançados gráficos 3D e bebia profundamente na estética do capítulo do SNES, mas tinha uma história tão TÃO TÃO boa que era quase impossível de largar. Itoi finalizou sua triologia. Nos finalmente entendemos o que houve com NESS e os outros. E Lucas, o personagem “principal” de Mother 3, entrou para o Hall de heroís da Nintendo conhecidos o suficiente para estar em um Super Smash Bros.

Se você tiver a chance de jogar Mother 3/Earthbound 2 não perca. É muito bom.

Até mais pessoal!

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Sobre Marcel Bonatelli

Historiador de games e jogador inveterado eu respondo todas as suas dúvidas sobre games e o mercado de games no site minicastle.org ou no email marcelbonatelli@minicastle.org

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